14.11.08
3.11.08
O Velado... Em mim.
A vida é assim mesmo
Eu fui embora
Mamãe, mamãe, não chore
Eu nunca mais vou voltar por aí
Mamãe, mamãe, não chore
A vida é assim mesmo
Eu quero mesmo é isto aqui
Mamãe, mamãe, não chore
Pegue uns panos pra lavar
Leia um romance
Veja as contas do mercado
Pague as prestações
Ser mãe
É desdobrar fibra por fibra
Os corações dos filhos
Seja feliz
Seja feliz
Mamãe, mamãe, não chore
Eu quero, eu posso, eu quis, eu fiz
Mamãe, seja feliz
Mamãe, mamãe, não chore
Não chore nunca mais, não adianta
Eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho um jeito de quem não se espanta
(Braço de ouro vale 10 milhões)
Eu tenho corações fora peito
Mamãe, não chore
Não tem jeito
Pegue uns panos pra lavar
Leia um romance
Leia "Alzira morta virgem"
"O grande industrial"
Eu por aqui vou indo muito bem
De vez em quando brinco Carnaval
E vou vivendo assim: felicidade
Na cidade que eu plantei pra mim
E que não tem mais fim
Não tem mais fim
Não tem mais fim”
18.10.08
TRIBUNAL POPULAR: O Estado Brasileiro no Banco dos Réus
Entretanto, estas comemorações enaltecem ordenamentos jurídicos cujas garantias aos cidadãos, como se sabe, não estão sendo colocadas em prática. Muito ao contrário, no caso brasileiro, o que vemos é o Estado, por meio de agentes dos seus três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) e ao nível da União e dos Estados da Federação, violar sistematicamente os direitos humanos das populações pobres do campo, das favelas e periferias urbanas (com ainda mais violência contra jovens negros, quilombolas, indígenas e seus descendentes). A cada dia fica mais evidente que o Estado brasileiro é um dos principais agentes violadores dos direitos humanos, sendo ele justamente a instituição que, nos seus próprios termos, deveria garantir os direitos e a segurança, e promover a justiça social.
Na verdade, o que sentimos cotidianamente é que se trata de um Estado penal habituado a julgar, condenar e punir uma ampla parcela de seus cidadãos, sobretudo a maioria mais pobre (indígena e negra, em especial). Um Estado que tem procurado criminalizar cada vez mais os trabalhadores desempregados ou empregados, criminalizar exatamente as organizações, sindicatos e movimentos sociais populares que lutam pelo cumprimento dos direitos básicos renegados por ele próprio, reivindicando uma justiça social mais ampla e por esta razão sendo reprimidos com medidas verdadeiramente fascistas. Um Estado também célere em praticar prisões preventivas e manter presas sem julgamento pessoas que na maior parte das vezes cometeram (ou supostamente cometeram) pequenos delitos contra o patrimônio dos ricos ou contra a chamada “ordem social”.
Enquanto isso, assistimos o tratamento absolutamente diferenciado e privilegiado, em todos os níveis, àqueles poucos ricos e famosos cujos altos crimes vêm à tona, e que ainda assim seguem desfrutando da garantia de impunidade no Brasil e no exterior. Por outro lado, esse mesmo Estado penal aplica somente para os pequenos crimes praticados ou supostamente praticados por pessoas pobres da periferia (como furtos e o comércio miúdo de drogas) uma punição desproporcional, com penas elevadíssimas. E ainda, depois de questionável julgamento, é esse mesmo Estado penal que não respeita as garantias previstas em sua própria Lei de Execuções Penais, em grande medida pela omissão e inoperância do Poder Judiciário, muitas vezes agindo de maneira deliberada.
Como se não bastasse, a ação violenta das polícias contra movimentos sociais e comunidades pobres não só é constante (geralmente garantidas pelas históricas “ordens de despejo” e pelas rotineiras “operações militares”, ou por esta nova esdrúxula criatura jurídica batizada de “mandado de busca e apreensão coletivo”), como é comum acabar em execuções sumárias concentradas ou difusas. Tal Estado, portanto, tem também seu lado exterminador. Conforme relatório preliminar de Philip Alston, relator da própria Organização das Nações Unidas para execuções sumárias e extrajudiciais, apresentado em maio de 2008: os policiais matam em serviço e fora de serviço. Porém, nenhuma investigação é feita em relação ao pretexto para a execução, isto é: a "suspeita" e o suposto confronto. Todo caso é classificado de "Resistência Seguida de Morte" ou "Auto de Resistência", e a investigação se concentra na vida do morto. Sabe-se, no entanto, que os policiais são preparados ideológica e praticamente para matar.
Por último, é também na qualidade de Estado Democrático de Direito que o Brasil tem sido convidado a participar com destaque de missões militares e “humanitárias” da Organização das Nações Unidas. Como, por emblemático exemplo, a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah), a respeito da qual a cada dia chegam mais denúncias de mortes, abusos e violências de vários tipos contra a população negra pobre daquele país. Denúncias que se somam aos crescentes indícios de que tais experiências internacionais seriam, na verdade, laboratórios militares para intercâmbio de operações repressivas desdobradas, sobretudo, contra comunidades pobres e movimentos populares nos territórios nacionais.
Diante dessa realidade, por iniciativa de uma série de organizações e movimentos sociais do Brasil, está sendo proposta a realização de um Tribunal Popular que julgue o Estado brasileiro. Um tribunal que mostre a responsabilidade do Estado por todas estas violações cotidianas, que proponha uma reflexão profunda sobre sua atuação. Nossa iniciativa pretende inverter radicalmente esta lógica unilateral que está naturalizada e acobertada pela suposta "lógica democrática", explicitando as inúmeras contradições e barbaridades da atual ordem social capitalista que tem exatamente neste Estado um instrumento privilegiado para a reprodução ampliada de suas injustiças e violências.
Por isso, propomos um Tribunal que coloque o próprio Estado no Banco dos Réus, nos moldes de várias outras iniciativas populares semelhantes, com um caráter crítico, didático e conscientizador. Vamos colocar o Estado Brasileiro diante das leis internacionais e nacionais que ele mesmo reconhece formalmente, mas não cumpre.
O Tribunal Popular, assim, se estenderá por quatro grandes áreas emblemáticas:
- Violência estatal sob pretexto de segurança pública em comunidades urbanas pobres: dentre outros, o caso do Complexo do Alemão no Rio de Janeiro;
- Violência estatal no sistema prisional: a situação do sistema carcerário e as execuções sumárias da juventude negra pobre na Bahia;
- Violência estatal contra a juventude pobre, em sua maioria negra: os crimes de maio/2006 em São Paulo e o histórico genocida de execuções sumárias sistemáticas;
- Violência estatal contra movimentos sociais e a criminalização da luta sindical, pela terra e pelo meio-ambiente.
Num momento em que vem à tona a discussão sobre a “a memória e a verdade” acerca das torturas e assassinatos cometidos pela ditadura civil-miltar anterior, pretendemos deixar muito claro que toda violência contínua do Estado Brasileiro e de seus agentes, lesiva à humanidade ontem e hoje, não prescreverá jamais no juízo histórico de sua população. Nesse sentido, conclamamos todos(as) a estarem presentes, contribuírem e participarem deste processo já iniciado que culminará, nos dias 04 a 06 de Dezembro de 2008, com a realização do "Tribunal Popular: o Estado Brasileiro no banco dos réus" na Sala dos Estudantes da Faculdade de Direito (USP), no Largo São Francisco em São Paulo-SP. Até lá, uma série de iniciativas relacionadas serão realizadas, para as quais todos(as) estão convidados (as).
ASSINAM ESTA 1ª CONVOCATÓRIA: ALAIETS, ASFAP/BA, Associação Amparar, APROPUC-SP, Assembléia Popular, Brasil de Fato, CAJP Mariana Criola, CDHSapopemba, CIMI-SP, Coletivo Contra Tortura, Comitê Contra a Criminalização da Criança e Adolescente, Conselho Federal de Serviço Social, Conselho Regional de Psicologia 6ª região, Comunidade Cidadã, CONLUTAS, Consulta Popular, Correio da Cidadania, CRP/RJ, DCE-Livre UFSCAR, DCE-Livre USP, Escritório Modelo DOM Paulo Evaristo Arns (PUC-SP), Fórum da Juventude Negra/BA, Fórum das Pastorais Sociais e CEBs da Arquidiocese de SP, Fórum Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente/SP, Fórum Social por uma Sociedade sem Manicômios, IDDH/RJ, Instituto Carioca de Criminologia, Instituto Palmares de Direitos Humanos/RJ, Instituto Pedra de Raio/BA, Instituto Rede Ação/RJ, Juízes pela Democracia, Justiça Global, Kilombagem, MLST, INTERSINDICAL, Movimento Defesa da Favela, Movimento Nacional de Direitos Humanos, Movimento Negro Unificado (MNU), MST, NEPEDH, Observatório das Violências Policiais de São Paulo (OVP-SP), ODH Projeto Legal, Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência/RJ, Quilombo X/BA, Reaja ou será mort@!/BA, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, Resistência Comunitária/BA, Sindicato dos Advogados de SP, SINTUSP, Tortura Nunca Mais/RJ
21.9.08
Contra a Ciência

18.9.08
"A Arte da Felicidade: um Manual para a Vida"

13.9.08
Alegria, alegria...

7.9.08
Mímesis, espelho da razão.

28.8.08
Razão e Arte em Theodor Adorno

Isso já faz certo tempo. As ciências positivas ganharam status de sagrado através de uma auctoritas que é a grande responsável pelo discurso acima de qualquer suspeita. O mundo explicado pela razão científica é este que estamos inseridos, mas o que isso significa?
O mundo organizado pela razão científica de longe é um mundo explicado de modo verossimilhante ao mundo mesmo. As guerras, a “fome racional”, a subordinação às leis econômicas e à tecnologia, o fracasso frente à iminência de um desastre ecológico, as doenças psicológicas, a disparidade entre o existir e o viver são os maiores indicadores de que esse mundo, amplamente conceituado e ordenado pela razão científica, tem algo de errado. Mas o que seria esse algo?
A questão que se encontra no núcleo desse problema é a questão sobre o mundo e o conceito: é possível que conceitos puramente racionais expliquem o mundo tal como ele é? Em meio ao fracasso de um projeto que buscava, através da razão, trazer a felicidade humana dentro de caracteres da linguagem sagrada dos matemáticos, o homem se encontra cada vez mais perdido e cada vez menos certo de que sua razão dominadora é capaz de trazer segurança a ele dentro de um cenário hostil, a saber, o mundo natural e seus perigos. O que existe aqui é uma tensão entre a razão e o mundo, e o fracasso da ciência frente a esse mundo nos traz quase que para a estaca zero quando pensamos na efetividade de uma aproximação e de um domínio de uma das partes sobre a outra.
O risco de incomensurabilidade entre as partes é algo considerável, a tensão é evidente. O projeto iluminista não se realizou, embora tenha trazido certo conforto ao homem, mas seria esse conforto bom? Estaríamos seguros dentro de sistemas fechados, ignorando a possibilidade de que esses sistemas isolam-nos do real? O mais curioso dentro dessas questões é pensar que os animais, por conseguirem resolver, de modo nada problemático, os problemas referentes à sua existência, parecem encontrar, de maneira efetiva, a conciliação com esse mundo natural, com o real, não vivendo o isolamento que nossa razão científica nos proporciona.
Nesse momento podemos considerar dois pontos de apoio ao problema colocado:
A) A razão científica não é a razão por excelência, mas uma manifestação da razão que, de certo modo, apresenta-se de forma equivocada. Caberia ao homem, através de um pensar crítico, resgatar o próprio pensar de sua condição de isolamento frente ao mundo, reconhecendo a tensão dialética entre mundo e conceito;
B) A razão, enquanto forma de conhecimento, pode recorrer a outro modo de conhecer para resgatar sua condição inicial, ou seja, aquela condição de pré-isolamento, onde o homem não se refugiava numa razão instrumental para buscar sua autopreservação enquanto espécie.
O que surge aqui é a razão que não se encontra como onipotente, que perde seu caráter mítico-científico, abrindo-se para um novo modo de conhecer. Mas qual é esse modo diferente da razão? Para Theodor Adorno a arte é essa forma de conhecer, onde as regras e sistemas da razão instrumental ou científica não possuem a autoritas de outras formas. Na arte o conceito não encontra lugar, não explica, dentro de suas formas, as manifestações daquilo que é conhecido. É na arte, segundo Adorno, que a razão reconhece sua incapacidade e percebe que não possui status mítico, que não é uma divindade, que não tem poder de vida e de morte.
A arte expõe a tensão entre razão e mundo, podendo fazer com que o homem se situe dentro dessa realidade, recuperando a dialética fundamental perdida pela razão científica. O problema gerado pela modernidade pode ser superado dentro desse resgate da razão tal qual. Por sua característica irracional, a arte ganha status de reguladora. Nesse ponto podemos relacionar a filosofia de Adorno com a filosofia de Nietzsche no que diz respeito ao equilíbrio entre Apolo e Dionísio, ou ainda a busca pela perda do status sagrado que a razão, enquanto “Verdade”, ganhou desde Platão e seu essencialismo.
A busca de Adorno é problemática e seu caminho é longo e talvez aporético, mas não podemos deixar de considerar que a Arte, enquanto modo de conhecer, nos traz a possibilidade de alívio em relação à angústia proporcionada pelo que ele chama de “mundo administrado” (verwaltete Welt). É de conhecimento de todos que a música, a pintura, as artes cênicas, a poesia ou outras formas de manifestação artística nos abrem as janelas de um mundo diferente daquele dos horários, das pressões do trabalho, das cobranças sociais em relação ao que fazer ou como se portar. É na arte que o indivíduo encontra alívio para as tensões modernas.
Nesse momento surge um novo problema em relação à arte: o que aconteceria se essa arte também fosse encaixada nos sistemas racionais, se essa arte se encontrasse dentro do isolamento da razão em relação ao mundo, fugindo da dialética fundamental entre os dois? Os pressupostos do que Adorno e Max Horkheimer chamariam de indústria cultural na obra Dialética do Esclarecimento estão contidas, embora de modo muito superficial, nessa questão.
Por hora, e a partir do que foi exposto acima, cabe pensar no papel da arte no mundo administrado e em quais aspectos do nosso cotidiano esse mundo administrado nos violenta, nos coloca dentro de um todo que, segundo Adorno, não é o real. O que é o real? Talvez pensar, no sentido de racionalizar, não seja, pelo menos de modo absoluto, a saída para tal questão.
7.6.08
Educação e Repressão

Estes e muitos outros números explicitam a situação precária de grande parte da população em relação à educação em nosso país. O índice de analfabetismo deve-se a inúmeros fatores, entre eles a taxa de evasão escolar, devido ao fato de que muitas crianças e adolescentes têm que abandonar a escola para trabalhar e ajudar suas famílias, além do fato de que, em muitos locais do país, não existem escolas próximas aos locais de moradias dos alunos, o que obriga muitos deles a deslocarem-se por horas de suas regiões de difícil acesso para outras regiões mais centrais.
A discussão que surge a partir de tal situação pode tomar os mais diversos rumos. Pode-se criticar o fato de que os governantes não constroem escolas o suficiente, que se deve melhorar a distribuição de renda para que a evasão escolar reduza entre aqueles alunos que necessitam abandonar os estudos para trabalhar, que a estrutura do sistema de ensino – e tudo o que decorre ao termo – deve ser modificada, ou ainda, que os professores devem ser remunerados de uma forma mais adequada.
Em sua obra Ideologia e Aparelhos Ideológicos de Estado2, Louis Althusser coloca a escola como um aparelho ideológico pertencente ao Estado. Tal aparelho visa a reprodução de relações fundamentais para a manutenção da dominação de uma classe sobre a outra. No sistema capitalista, as relações de produção devem ser garantidas para que o sistema siga sua lógica econômica. O Estado, enquanto aparelho repressivo mantém não só aparelhos ideológicos, mas também aparelhos repressivos que ajudam a manter as relações de produção, que na realidade são relações de exploração.
Essas relações não seriam possíveis não fossem os aparelhos que garantem sua continuidade. Os aparelhos repressivos surgem para manter a exploração em dia, enquanto os aparelhos ideológicos mascaram tais relações, fazendo com que os indivíduos não enxerguem suas relações dentro dessa lógica imposta. A Escola aparece como o principal desses aparelhos ideológicos, segundo Althusser, uma vez que mantém uma relação com o indivíduo desde cedo e durante um tempo muito maior que os demais aparelhos.
István Mészáros, em sua obra A Educação Para Além do Capital3, coloca como grande desafio para a educação a luta contra uma lógica incorrigível. Nesse sentido, a lógica capitalista e todas as suas formas de interiorização devem ser combatidas por uma educação libertadora, que não sustente o pensamento surgido a partir dessa interiorização. Sua grande crítica, ao longo da obra, direciona-se para o pensamento que defende uma reformulação da educação que mantém os processos de internalização da lógica capitalista, implicando todas suas relações necessárias. Tal reformulação, ao manter viva uma lógica obscurecida pela ideologia dominante, não proporciona nenhuma transformação real das condições de exploração do sistema. Segundo Mészáros, não é possível transformar as relações de exploração sem que se promova um rompimento com todas as estruturas formais do capitalismo. Dessa forma, as soluções no âmbito educacional devem ser essenciais, no sentido de que devem dar conta de todas as relações sociais e suas implicações, em oposição a uma educação formal, que fragmenta essa visão essencial, e promovendo a manutenção de uma lógica incorrigível.
A partir das visões colocadas, podemos analisar os diversos rumos colocados acima para uma possível melhora do ensino em nosso país. De fato, dentro da lógica do capitalismo, muitas soluções – se não todas elas – são profundamente aceitáveis, mas o que devemos observar, nesse momento, é o fato de que tais rumos ou soluções propostas não rompem de fato com as causas essenciais dos problemas observados. Toda a crise da educação no Brasil pode ser vista como uma falha administrativa, como um erro econômico, como um descaso por parte dos governantes, ou ainda um reflexo das condições ainda precárias de diversas regiões do Brasil. Tal visão é verdadeira, mas segue presa a uma lógica mistificadora. Ao se propor as soluções expostas ou se avaliar suas causas do modo como observamos acima, mantemos uma relação superficial com uma estrutura formal que se mantém obscurecida por esses mesmo discursos que buscam apenas uma reformulação da educação posta, caindo no erro explicitado por Mészáros.
A função do Estado, juntamente a todos os seus aparelhos ideológicos e repressivos, segue a lógica abordada por Mészáros para buscar um rumo transformador da educação. Através dos rumos reformistas colocados acima, podemos identificar como toda mistificação desses aparelhos formais transforma a consciência dos indivíduos, bloqueando qualquer possibilidade de uma mudança significativa das relações de exploração mantenedoras do sistema capitalista.
6.6.08
Armar um tabuleiro de palavras-souvenirs
Apanhe e leve algumas palavras como souvenirs
Faça você mesmo seu micro tabuleiro enquanto jogo lingüístico
Babilaque, pop, chinfra, tropicália, parangolé, beatnick, vietcong, bolchevique, technicolor, biquini, pagode, axé, mambo, rádio, cibernética
Celular, automóvel, buceta, favela, lisérgico, maconha, ninfeta, megafone, microfone, clone, sonar, sputinik, dada
Sagarana, estéreo, subdesenvolvimento, existencialismo, fórmica, arroba, antiquários, motossera, mega sena
Cubofuturismo, biopirataria, dodecafônico, polifônico, Naviloca, polivox, polivox, polivox, polivox...
____________Waly Salomão
18.5.08
Carl Schmitt e a Amazônia

O The New York Times publicou nesse domingo uma reportagem com o título “De quem é esta floresta amazônica, afinal?”, onde coloca-se a posição de muitos líderes mundiais de que a Amazônia já não pode mais ser vista como patrimônio do povo brasileiro, mas sim um patrimônio mundial. O jornal até cita as palavras do ex-vice-presidente americano Al Gore que dizem que “ao contrário do que os brasileiros acreditam, a Amazônia não é propriedade deles, ela pertence a todos nós”.
O mínimo que se pode esperar de uma discussão como essa é que os ânimos em relação a ela permaneçam exaltados, que se olhe nos olhos daqueles que mantém a posição contrária à sua e procure identificar, exatamente, até que ponto o seu interlocutor irá defender sua opinião: se manter-se-á simplesmente no terreno da discussão, ou se levará a um enfrentamento que possa colocar um risco ontológico à posição oposta. Por que estou dizendo isso? Vejamos mais de perto...
Ao analisarmos o problema da Amazônia e toda relação que subjaz à questão sobre sua posse, observamos um problema de ordem política. Tal afirmação deve ser cuidadosamente sustentada por uma clareza de conceitos. O que é política, afinal? Desenvolveremos aqui um conceito colocado pelo pensador alemão Carl Schmitt.
Schmitt, em sua obra O Conceito do Político, define política como um conjunto de relações de poder entre indivíduos em um determinado espaço. Ao colocar dessa forma, Schmitt torna fundamental para a discussão sobre política, em nossos tempos, a discussão sobre o Estado e seu papel na política. Ao afirmar que a política é uma relação de poder dentro de um determinado espaço, observamos que não é possível falar de Estado sem falar de política, pois Estado pressupõe um território físico, cujas fronteiras delimitam sua ação e dos seus indivíduos constituintes. Logo, o Estado é um espaço político, e falar dele sem passar por essa esfera de relações torna-se uma tentativa que pode, por consequencia, gerar um esvaziamento do conceito do político. Vejamos agora o que esse equívoco pode acarretar.
O que podemos observar na discussão sobre a Amazônia é um questionamento acerca do direito de soberania do Brasil sobre uma parte de seu território. Schmitt coloca a soberania dos Estados como um grande indicador da forma de fazer política. O Estado é, segundo Schmitt, uma unidade política onde seus membros formam um bloco que deve definir exatamente quem são seus amigos e seus inimigos. Schmitt traz de Aristóteles os critérios para se dizer o que é ou não campo de ação política, pois Aristóteles dizia que “a amizade e a guerra são a origem de toda instituição e de toda destruição”. A partir disso, podemos dizer que o papel de toda unidade política, colocada na modernidade sob a roupagem de Estado, deve definir a amizade ou inimizade em relação às demais unidades políticas do planeta, ou seja, os critérios do político passam pela definição de amigo ou inimigo. A forma como o Brasil trata a questão da Amazônia indica sua forma de fazer política. Deve-se definir, exatamente, se trata-se de declarar como inimigos aqueles que ferem sua soberania, pois ao ferir sua soberania, temos um ataque claro a uma unidade política.
O que podemos observar nos dias de hoje, é um aumento do poder privado em relação ao poder estatal. O velho ideal liberal de individualismo e livre concorrência bate de frente com a unidade política estatal. As decisões do Estado não condizem com a liberdade individual, com o poder de decisão de cada indivíduo livre e autônomo. A unidade política, segundo o liberalismo, não respeita a liberdade. O que temos nos ideais liberais, é uma busca pelo poder de uma certa unidade – de interesses econômicos – em relação à propriedade pública do Estado. A grande preocupação dos liberais seria a possibilidade da propriedade privada ser colocada em risco pela propriedade estatal, ou seja, os poderes do Estado deveriam ser restritos a um pequeno número de funções, mais de ordem organizacional do que de um poder estabelecido. Somente com o enfraquecimento do poder estatal, os membros das idéias liberais teriam a segurança de manterem o direito à propriedade privada individual, para poderem concorrer entre si dentro do campo econômico.
Com o passar dos tempos, os ideais liberais foram ganhando território, o Estado foi enfraquecendo, e o que se observa é que, cada vez mais, seus poderes são deixados de lado em função dos interesses econômicos. A unidade política não deve mais sobressair-se em relação ao campo econômico. Todos os conceitos que surgem dentro dessa unidade como, por exemplo, democracia ou soberania são utilizados como mitos, pois seus conceitos remetem a idéias clássicas que não correspondem ao uso dessas palavras dados no modo de vida atual.
Dentro desse contexto, a discussão sobre a Amazônia ganha novo fôlego. O que temos é uma situação onde não haveria motivo algum para se discutir sobre a posse ou não de um determinado território, a não ser que esse território desperte interesses econômicos de outras unidades políticas. A soberania do Brasil e demais países da América do Sul, que possuem parte da floresta amazônica em seus territórios, apenas é respeitada enquanto há uma concordância entre os interesses dos territórios de maior domínio econômico. A soberania do Estado, colocada como pressuposto para autonomia de qualquer país, apenas existe enquanto corresponde a interesses de ordem econômica. A Amazônia pertence ao Brasil, não de acordo com sua soberania, mas de acordo com uma determinada situação econômica dada.
O esvaziamento do conceito do político cria um véu, onde as verdadeiras relações colocadas ficam fora do campo de observação dos indivíduos. O problema da soberania gera uma tensão, mas essa tensão é abstraída por discursos como o do ex-vice-presidente americano, que coloca a amazônia como um território com grande diversidade natural que poderia servir aos interesses de toda humanidade, e não só dos brasileiros. Tal discurso reflete a posição de uma sociedade que busca no domínio da natureza sua felicidade, mas também reflete que, em último caso, as relações políticas dadas podem até mesmo chegar a um estado de guerra onde, por algum motivo colocado de forma semelhante ao discurso de Al Gore, legitima-se um confronto armado. O que se diz sobre o confronto dos EUA com os países do Oriente Médio é que existe uma caçada ao terrorismo, mas por trás desse véu correm interesses econômicos pelos recursos naturais daquela região, a saber, o petróleo, bem tão valioso no capitalismo tardio.
A preocupação está justamente em não enxergar que, dentro desse jogo, as unidades políticas não deixam de existir. Mesmo em um tempo onde a esfera econômica toma as decisões, a relação entre amigos e inimigos permanece. O problema está no fato de que, ao não se enxergar tais relações, os discursos economicistas que mascaram a tensão entre as unidades políticas tornam-se eficientes e dominantes dos indivíduos. A política possui, segundo Schmitt, uma autonomia que independe das ações dos homens atualmente. A economia pode mascarar os fatos, mas o que está dado, está dado.
Como o Brasil encara os questionadores da Amazônia? Qual a posição por parte da unidade política colocada? Dada a situação em que nos encontramos, são unicamente os políticos do velho Estado que detém o poder dentro dessa unidade ou seriam também os defensores do domínio da esfera econômica?
É claro que as posições schmittianas acerca de política podem ser questionadas, mas sua análise torna-se eficiente quando as aplicamos ao uso das palavras dentro de nossa sociedade. Ao se enxergar as relações reais a partir dos critérios do campo político, percebemos como o uso de conceitos como o de soberania não passam de discurso manipulador, que sustentam uma superestrutura – tomando o termo de Marx – que permanece no domínio de uma unidade política. Voltando ao segundo parágrafo, trata-se de olhar nos olhos daquele que mantém um discurso, para enxergar, exatamente, qual seu status, ou seja, qual seu papel dentro dos critérios de amigo e inimigo. Não é questão de preferência ou de escolha, mas questão de sobrevivência, pois o que legitima uma guerra não passa pelo campo econômico, mas pelo campo político. Apenas na política se define quem é amigo ou inimigo em um pluriversum político, ou seja, motivo econômico nenhum justifica a morte de pessoas, a não ser o risco existencial possibilitado pelas relações políticas que pairam sobre qualquer esfera que venha a dominar as relações entre os Estados, sejam elas econômicas, religiosas, etc.
A discussão sobre a Amazônia está longe de ser uma discussão sobre o que é melhor para a humanidade, pois o termo humanidade deveria pressupor uma unidade política global. Tal unidade não existe, pois segundo Schmitt
“quando um Estado luta contra seu inimigo em nome da humanidade, não se trata de uma guerra da humanidade e sim de uma guerra para a qual um determinado Estado procura ocupar um conceito universal frente ao seu inimigo, para – às custas do adversário – identificar-se com tal conceito, assim como se pode abusar de paz, justiça, progresso e civilização, para reivindicá-los para si e negar que existam no lado do inimigo [1]”.
O que podemos tirar de tal afirmação é que o interesse sobre a amazônia não é um interesse pelo bem da humanidade, mas sim pelo bem de uma determinada unidade política, e a discordância desse bem pode gerar uma tensão onde, em um caso extremo, poderemos ter uma situação de guerra. Toda relação amigo-inimigo deve pressupor uma guerra, pois negar tal fato seria negar as potencialidades dessa relação, tal como a vemos realizada ao longo da história. Não se trata de fazer apologia à guerra, mas de enxergar sua possibilidade e saber atuar a partir dessa visão. O risco ontológico por trás de uma discussão como a referente à floresta amazônica deve ser evidente. O Oriente Médio que o diga.
17.5.08
1.5.08
A Razão da fome
Os países mais pobres, que não entraram na onda consumista dos países mais ricos, são os que sofreram primeiro com a crise. Em países como Indonésia, Haiti e Honduras já ocorrem insurreições populares em função da fome. Há de se compreender que nesses países, onde a alimentação básica depende dos alimentos que são extraídos diretamente da produção agrícola, e não das grandes empresas de alimentos industrializados, o castigo venha mais cedo. Com o aumento dos preços desses alimentos básicos, como os grãos, por exemplo, a população, que mal tinha dinheiro para bancar os preços antigos, deixa de ter o pouco acesso que tinha a esses alimentos.
Mas qual o problema central dessa crise? Existe o que a imprensa chama de “falta de alimentos”? Será que com o atual desenvolvimento das técnicas de cultivo, falta ao homem condições adequadas para que a população mundial se alimente adequadamente? Pode-se conceber que, com a existência de tantos produtos industrializados nas prateleiras dos supermercados, não exista o mais simples, ou seja, alimentos extraídos da própria terra?
Podemos dar a tais perguntas um ar de retórica, exceto com relação à primeira, mas isso apenas a princípio. O que gera a crise dos alimentos é simplesmente a alta dos seus preços. Por isso, e destaco novamente, os países pobres, que antes já encontravam extrema dificuldade em comprar alimentos com os preços antigos, agora, com os reajustes, não encontram mais possibilidade de comprá-los. Logo, temos a crise estourando inicialmente em países como Indonésia e Haiti, e só agora – podemos afirmar isso em decorrência da exposição na mídia – o problema chegou aos países ricos.
A pergunta mais simples e que poderia soar como a mais idiota seria: por que não se baixa os preços dos alimentos? Mas a pergunta mais simples é que está carregada de maior teor crítico.
O que promove a morte por inanição de milhares de pessoas em todo o mundo é simplesmente a alta dos alimentos. Pode-se pensar em questões morais, como, por exemplo, dizer que os capitalistas são inescrupulosos e sem humanidade alguma por preferirem aumentar os preços dos alimentos a deixá-los mais baixos e evitar um genocídio alimentar. Mas penso que categorias morais aqui não chegam até a raiz da questão, não remetem à realidade de forma crítica.
Os aumentos nos preços dos alimentos, como tudo no sistema capitalista, seguem uma determinada ordem. Mas qual é essa ordem? A ordem colocada aqui é a ordem do mercado financeiro que, entre outras leis, coloca a oferta e a procura como uma de suas reguladoras. Podemos citar muitas outras leis que um economista colocaria aqui com muito mais propriedades que eu, mas apeguemo-nos à idéia geral da proposição colocada: o aumento dos preços dos alimentos segue as leis do mercado financeiro.
Quem controla as leis do mercado financeiro? O homem? Vejamos isso. Quem controla a previsão do tempo? O homem? Sim. Mas quem controla o tempo? O homem? De forma alguma. Pensar que o homem pode controlar o tempo é o mesmo que pensar que o homem, em seu atual estágio de entrega às leis organizadoras do capital, pode controlar as leis do mercado financeiro. Mesmo que o homem burguês quisesse baixar os preços dos alimentos, ele não poderia. As leis que regem o mercado financeiro são fundamentais para que o sistema capitalista permaneça dentro de uma certa ordem, seguindo uma determinada estrutura. Chegamos ao ponto em que tais leis, tais regras de funcionamento do sistema financeiro, são tão fortes que não dependem mais da vontade dos homens para ordenarem o mundo. Elas criaram autonomia, como as leis da natureza que seguem seu curso sem que o homem possa fazer algo para modificá-las.
Mas como chegamos a tal ponto? Como uma lei criada pelo próprio homem ganha tal autonomia? A entrega total à razão, a necessidade de organizar o mundo através das ciências positivas, dos números, da racionalidade “neutra”, trouxeram o homem até aqui. O que podemos observar é como chegamos ao ponto de entrega do homem à racionalidade, tornando-a um mito tão grande, que nem mesmo o homem pode lutar contra ela. A razão, deus absoluto, regulador da vida humana, criador das ciências, trazendo a matemática como sua linguagem sagrada, criador das leis do mercado financeiro, é quem dita o destino do homem.
O que temos aqui é um estágio de alienação, inclusive da classe dominante, que não permite mais ao homem enxergar além de sua abstração do real. Simplesmente não existe, de acordo com a ideologia dominante, a possibilidade de simplesmente baixar os preços dos alimentos, pois isto iria contra uma lei universal e autônoma. É como ferver a água sem esperar que ela evapore, é como fazer fogo sem gerar calor. O mito aqui, assim como na antiguidade, busca na natureza suas características reguladoras da vida, invertendo a relação em seguida. A razão torna-se necessária e universal como o mundo natural ao qual ela está presa de modo inevitável. Nem mesmo o pensamento de que essa razão possa controlar e transformar a natureza o livrou de seu embaraço inicial. A razão, enquanto mito, possui status de místico.
O cogito cartesiano, potencializado pelo positivismo, nos entregou a um novo deus. Afirmar, assim como Marx, que o capitalismo traz em si os germes de sua própria destruição, coloca de forma negativa a mitificação da razão em seu estágio mais avançado. É reconhecer que a autonomia das leis criadas pela razão tem poder de vida e de morte. Talvez o erro de Marx tenha sido pensar que havia a possibilidade de fugir de um deus. Como lutar contra um mito estando sob suas leis de forma tão profunda? Pode a parcela racional da humanidade ir contra sua própria “natureza”? Não é só a classe dominante que se encontra sob o jugo da razão, de modo que surge a pergunta: basta observar as relações materiais para transformar o mundo sem ter que, para fazê-lo de forma crítica, fugir do jugo da razão?
A crise dos alimentos é um exemplo triste, mas perto de sua força geradora parece brincadeira. Os economistas, assim como os cientistas, tentarão sempre achar uma forma de controlar as leis naturais, tentando ao máximo promover a vida humana dentro das vontades de uma classe. As massas permanecerão aguardando, como uma criança que observa seu pai saindo para trabalhar pela manhã, sem imaginar o tom de sobrevivência que implica a ação de seu genitor. Pensar fora dessas relações é como pensar o nada. Talvez, assim como Heidegger, seja o momento de esperar pelo não-existente, pelo velado, já que o universo que possuímos no momento nada mais é que o reflexo de um deus implacável e frio.
13.4.08
Disfarçando a morte

O caso da menina Isabella evidencia de forma deprimente o papel da comunicação de massas na sociedade do capitalismo tardio, a saber, entreter o seu espectador escondendo esse fato na sua forma positiva enganadora que a transforma em veículo de informação. Por esse motivo chamamos os jornais, telejornais e revistas, de meios de comunicação informativos, que nos colocam em contato com os principais acontecimentos de forma neutra e responsável. Eis o exemplo de como esses meios de comunicação conseguiram, ao longo de sua existência, ganhar espaço na sociedade, conquistando credibilidade, permanecendo acima de qualquer suspeita e ganhando status de “quarto poder”.
Insisto na vida que se tornou cinema, e no amanhã que se transformou em “cenas dos próximos capítulos”. O que a comunicação de massas faz não ultrapassa nem em um milímetro essa vida. O que podemos observar na exploração de casos como o da morte da menina Isabella é como essa comunicação transforma em espetáculo tudo o que achar conveniente a seus interesses. O grande Midas dos nossos tempos transforma em ouro assassinatos, sequestros, invasões de reitoria, assaltos e todo tipo de acontecimentos, visando a transformação destes em uma seqüência de cenas que assistimos diariamente e ansiosamente, aguardando seu desfecho, quase que participando dos seus desvelamentos e aguardando seu final. Sim, o final é o momento mais aguardado, assim como qualquer trama acompanhada nas pequenas ou grandes telas, sendo essas duas, soldados da reificação da arte e da comunicação contemporâneas.
Não há como escapar. Mesmo desligando-se desses veículos a vida em sociedade continua. Como já citei em outro texto, “cada telespectador carrega em seus olhos uma tela, na qual o que assistimos é o mesmo que nas grandes emissoras”. Torna-se impossível tampar os ouvidos aos comentários sobre o acontecimento do momento. No ônibus, no trabalho, na escola, no ambiente familiar, na rua... O que se ouve e observa é a reprodução de tudo o que é despejado pela comunicação de massa. Aqui, o espetáculo antecede a vida cotidiana, mas procura, dialeticamente, manter a impressão oposta.
Outro aspecto aterrorizante é o fato de que o telespectador, em nenhum momento, desconhece o desfecho da história em destaque. Como nos filmes, o que se espera encontrar no final é sempre o que se encontra fatalmente. Da mesma forma, a notícia transformada em espetáculo também carrega essa característica do sempre igual. A impressão causada por tal recurso é de que, mesmo nos acontecimentos mais cruéis e nas tragédias mais fatais, a normalidade sempre cumprirá, de forma absoluta, seu papel na vida cotidiana. Podemos, sobre essa conclusão, citar as palavras de Adorno:
“Todo espectador de um filme policial da televisão sabe com absoluta certeza como será o final. A tensão é mantida apenas superficialmente, o que faz com que seja impossível obter um efeito sério. Ao contrário, o espectador sente estar num terreno seguro por todo o tempo” (Adorno, "Television and the Patterns of Mass Culture").
O caso de Isabella já possui seu desfecho. Não sabemos sobre seu assassino, mas sabemos que o mesmo será descoberto. Imediatamente a história perderá sua importância, dando lugar a um novo acontecimento, sempre apresentado de forma fragmentada, diariamente, massacrando o telespectador com uma falsa tensão.
Outro ponto a ser observado é a arbitrariedade na veiculação do caso Isabella, pois esse, caso não fosse veiculado, não faria a menor diferença para o público dos grandes meios de comunicação. O que temos aqui é a seleção de um acontecimento que, poderia-se afirmar, surge em nossa sociedade frequentemente e beirando a banalidade. Sei que tal afirmação não possui a menor base empírica, mas há de se concordar que desgraças desse tipo dificilmente seriam casos isolados em uma sociedade de população tão expressiva em termos numéricos. Se o problema são números, me apego a esse argumento. Ao ser escolhido, arbitrariamente, o acontecimento imediatamente vira espetáculo com suas estrelas principais e coadjuvantes. Contudo, não podemos negar que nem todos os acontecimentos transmitidos surgem dessa forma arbitrária, pois alguns são transmitidos, fatalmente, pelo seu impacto social, como o caso ocorrido há quase um ano com o avião que colidiu no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Nesse caso, o acontecimento deve ser envolvido pelo formato cinematográfico padrão dos meios de comunicação, mantendo seu compromisso com o espetáculo. É o preço a ser pago até mesmo pelo inevitável no mundo da comunicação de massa.
Em um mundo onde a informação tornou-se refém do espetáculo não há mais lugar para o real. O que se observa é a predominância de uma fantasia constante. No momento em que a fetichização se apropria da informação, vemos os fatos cederem lugar aos boatos, transformando a vida naquilo que a indústria cultural deseja que ela seja. O caso da menina Isabella é apenas um exemplo de como a fragmentação da vida guia as mentes vazias. O caminho trilhado até aqui parece assustador quando se pensa que o caso em si não teria a menor relevância na vida das pessoas, ao menos que seja transformado em espetáculo pela mídia. Nem mesmo uma tragédia de proporções maiores tornaria-se relevante. A vida, fora da fantasia, surge como a negação do espetáculo e do que agora é tomado como real. Não se espera mais nada daquilo que não passa pelo mundo fantasioso dos meios de comunicação de massa, podendo-se até mesmo pensar que, no final das contas, não há mesmo uma morte real sobre a qual lamentar. Não há como lamentar um morto estando na mesma condição. O espetáculo aqui surge como o disfarce salvador de uma vida paradoxalmente fúnebre.
16.3.08
Outro Filme

Eu estou em um filme. Nesse domingo nublado e silencioso, onde pronunciei pouco mais que cinco palavras, senti-me encenando um drama de péssimo roteiro. Não deixei de perceber como o meu final era bem pior que muitos outros, mas na disputa dos roteiros nem percebi que havia tantos outros finais piores que o meu. Não quis saber!
Não quis enxergar o que havia por trás do rolo antigo, da trilha sonora triste e da péssima bilheteria. Não quis saber do choro que realmente importava e nem das mortes no outro filme. Acho que era de guerra... Vi pelo sangue no final, mas nem liguei.
A indústria cultural está em minha tragédia pessoal, no meu choro vazio, no meu medo da solidão. Está no caos de meus pensamentos, na busca pelo amor perfeito, no ódio pela rejeição inesperada. A mocinha do meu filme fará parte de outro roteiro, e quanto ao meu novo filme, talvez a veja, mas o que me deixa triste é que ela agora será uma coadjuvante ou no máximo uma participação especial. Teria sido uma participação especial já nesse recém acabado?
Hoje quis experimentar o final feliz que há tempos não encenava, quis experimentar a bela música me exaltando, talvez uma banda americana com belos vocais femininos, acordes simples e adequados à ocasião. Quis ser sucesso de público, quis emocionar minha platéia, quis ser comentado pelas revistas, elogiado pela crítica... Talvez um Oscar. Ai, como quis!
Talvez seja essa minha tristeza, mas se for essa... Fico ainda mais triste. Triste por ter descoberto que não se trata de um filme. E caso não se trate disso... Não conheço do que se trata. O fato é que não sei como é estar fora dos holofotes, das claquetes, do “luz, câmera, ação”, das capas de revista, das premiações glamourosas.
Hoje a mocinha do meu filme me fez enxergar como eu me encontro mais do que nunca imerso numa realidade que nem de perto foi escolhida por mim. Talvez não por ter ficado sem ela ou ainda por ter passado essa tarde fria sozinho e com medo, mas talvez por ter enxergado como estou preso a um elenco imenso ao qual não sei sair.
O final foi esse, por hora, mas a náusea maior vem do fato de que virão outros, e eu, triste ator sem esperanças, mesmo assim buscarei meu happy end.
3.3.08
O Onipresente e o Particular

A vida banal, a rotina das ruas, a princípio parece o motor do que assistimos nos programas televisivos, sendo eles dramas, romances ou comédias. O pensamento que se tem sobre estes elementos, veiculados pela indústria cultural, nos parecem uma representação fiel, talvez ingênua da vida como ele é. Tal juízo surge como um mistificador que cobre o pano de fundo real de um processo que fatalmente passa pelas relações econômicas.
A indústria cultural atua como o ópio contemporâneo do povo. A religião não mais dita a alienação sem antes passar pelo crivo dos anúncios publicitários e interesses editoriais das grandes empresas de comunicação. Aliado a isso, os meios de comunicação tornam dependentes de sua onipresença, inclusive, os governantes que todos os dias aparecem como protagonistas nas primeiras páginas e principais manchetes do dia, representando a peça da vida no teatro cruel da informação corporativa.
A indústria cultural dita a vida. Todos os dias, ao andar pelas ruas, o que se observa é um espetáculo de clones das personalidades da mídia. Vemos o comportamento forçado de coadjuvantes de um sistema que apenas busca, através da informação e do entretenimento, a distração para uma vida que passa longe do bem-estar colocado pelos holofotes dos estúdios e editoriais das grandes revistas. A necessidade de seguir o comportamento estampado todos os dias na TV é um exemplo cruel de como o sentido dessa relação segue pelas antenas das emissoras e, apenas então, encontra a vida. A TV não representa a vida, mas cruelmente a cria pensando sempre o novo, que é sempre o mesmo, todo instante ao seu público, gerando uma liberdade que passa longe de qualquer devir. A liberdade da indústria cultural limita-nos ao mesmo, aparentando a larga opção.
O amor previsível das novelas gera o “eu te amo” escravizado, o final onde o mocinho sai como vencedor gera a fé no cotidiano e, pior ainda, até mesmo aqueles que não assistem à TV estão paralisados por esse simulacro. A própria imersão nessa sociedade faz com que os “rebeldes da indústria” sejam influenciados. Cada telespectador carrega em seus olhos uma tela, na qual o que assistimos é o mesmo que nas grandes emissoras. Cada palavra, cada centímetro de roupa, cada letra de música cantada, cada relato da vida pessoal confirma, diabolicamente, a onipresença da indústria cultural.
O “grande irmão” já não tem mais a necessidade de observar cada minuto da vida banal. O controle social chega a tal ponto que os indicativos de consumo, em comparação aos anúncios, mostra aos donos da informação e do entretenimento o que se deve ou não ser feito. A cada beijo apaixonado, a cada flash curioso, a cada nota tocada o que se esconde como cosmos é o valor de troca. Ao produzir seus clones, a indústria cultural produz novos homens. Ao reproduzir a arte, agora imutável, como uma idéia fora desse mundo, ela reproduz seres humanos à sua imagem e semelhança. Os artistas foram banidos da república, a arte passou longe das luzes da fama, restando sua antítese que brilha como um ideal, ou melhor dizendo, como ator principal de um drama, com grande sucesso de público.
17.1.08
Ajudando o senso comum...

Desde que comecei a estudar filosofia, percebo cada vez mais os ataques ao velho senso comum. À medida que os estudantes de filosofia distanciam-se do mundo, percebo seu desdém com este “monstro” que habita listas negras. Outro dia estava fuçando pelo famigerado Orkut - nada melhor para achar pérolas do senso comum -, pesquisando sobre comunidades relacionadas a este “monstro”. E não é que percebi que algumas vezes o próprio senso comum se odeia? O senso comum não tem amor próprio em certos momentos!
Explico citando o texto de apresentação de uma das comunidades visitadas:
“quem já não se perguntou como as pessoas conseguem ser tão sem cultura?elas olham coisas inúteis na TV e já acham q só pq está fazendo sucesso é bom!todas as músicas boas estão sendo esquecidas, para dar lugar à esses lixos, que as pessoas chamam de música.por isso, vcs, que acham q todas as músicas e coisas inúteis do mundo deveriam ser banidas, essa é a sua comunidade!e é importante colocar aqui tb, que não é só na música que acontece isso, infelizmente. é também na vida política das pessoas, e esta, não deixa de atingir a vida econômica tb. e tudo isso pq há bandos de "mentes fracas" q não tem inteligência o suficiente para formarem suas opiniões, e precisam ficar se guiando pelo o q uma medíocre emissora q gosta de mentes vazias para poder plantar o seu veneno nelas,fala.por isso, é hora de vc fazer algo, e não "ficar esperando acontecer", afinal, mesmo q pensamos q nossa opinião não vá resolver alguma coisa neste país perdido, não custa tentarmos”. (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=4142895)
Será que conseguiremos aumentar a auto-estima do senso comum? Vamos tentar utilizando alguns argumentos do texto acima:
Primeiro argumento do texto: quem possui senso comum não tem cultura.
O homem possui cultura, a menos que viva isolado, a menos que permaneça sem contato algum com costumes criados por determinada sociedade. Em momento algum, cultura é sinônimo de inteligência, a não ser para um julgamento oriundo do velho senso comum, que insiste em afirmar que alguém sem “cultura” é “ignorante” ou pouco conhecedor das “verdades do mundo”. A cultura, conjunto dos hábitos de uma sociedade, bebe em muitas fontes como a religião, a arte e também o senso comum. Alguém aí não tem cultura? Alguém aí não sabe o que é religião? Alguém aí nunca se deparou com arte? Alguém aí se acha fora do senso comum?
Segundo argumento do texto: a mídia gera arte inútil, e isso faz parte do senso comum.
É de praxe do senso comum dizer que algo é inútil, mas como vemos acima, não há uma fundamentação sobre o que é útil ou inútil. Não é de responsabilidade do senso comum conceituar as coisas e nem fundamentar suas afirmações. A música criticada aqui, juntamente a outros produtos da indústria cultural, é ruim, pois é inútil. As músicas boas, segundo o texto, estão sendo esquecidas, mas se o senso comum não sabe o que é útil, acho difícil que saiba o que é bom. Afinal, o que é música boa? Ainda sobre música, uma proposta: que todas as coisas inúteis sejam banidas. Mas é muita responsabilidade banir algo que nem ao menos se sabe o que é!
Terceiro argumento do texto: as mentes “fracas” e sem “inteligência” – oriundas do senso comum – não têm capacidade de gerar suas próprias opiniões. Tal situação se estende à vida política e econômica, prejudicando-as.
Sim, o desinteresse por estas duas esferas da vida social realmente é um problema. Através deste desestímulo promovido pelas classes dominantes, percebemos que os homens cada vez mais se encontram presos em amarras ideológicas. Neste ponto o texto mantém uma afirmação que pode ser sustentada, exceto pelo fato de afirmar que a “opinião” é algo de grande valor. A opinião, pode ser compreendida como uma afirmação que muda em todo momento, instável, que se encontra constantemente em conflito por não possuir argumentos sólidos. É normal, e faz parte do senso comum, achar que pessoas de opinião são “inteligentes”, mas será que um conhecimento razoável é gerado por uma simples opinião? Pode-se afirmar que sim ou não, mas de fato, tal afirmação requer uma investigação que passa longe do papel do senso comum e da simples opinião.
Sem maldades, o texto acima está carregado de juízos, alguns com certo fundamento “inconsciente”, outros sem conexão alguma entre seus sujeitos e predicados. Um texto que mistura tais características pode muito bem ser taxado de produto do senso comum. Chegamos ao ponto desejado. Pode o senso comum criticar a ele mesmo?
Creio que ao incumbir-se de tal tarefa, o senso comum busca algo fora de suas capacidades. O termo “senso comum” não foi nem ao menos criado por ele. Ao criar outros modos de conhecer o mundo, o homem pôde finalmente separar essas diversas formas umas das outras. É observando a forma como um cientista investiga o mundo que vemos, por exemplo, como o senso comum se diferencia da ciência. A partir dessas diferenças que podemos, finalmente, saber o que é senso comum, ciência, filosofia, entre outras formas de conhecimento. Restaram ao senso comum, as características descritas no início do texto, não cabendo a ele a tarefa de criticar-se. Mas calma! Também não cabe à ciência a tarefa de falar sobre sua utilidade, nem à religião criticar suas diversas crenças e nem mesmo a arte dizer o que é arte.
Ajudemos o senso comum! Não vejo uma forma de separar totalmente essas diversas formas de conhecimento. Não possuímos botões que acionam, ora uma, ora outra dessas formas. Nascemos e, assim como a humanidade, no início de nossas vidas, estabelecemos juízos imediatos, espontâneos. Recebemos, graças à comunicação, por exemplo, informações que nos levam ao conhecimento de outras formas de investigar o mundo, de conhecê-lo. Logo, temos o senso comum como um começo de ciência, onde este primeiro contato gera fundamentações que nos levam a afirmações cada vez mais sistemáticas acerca das coisas.
A crítica do senso comum pelo senso comum pode ser vista como um efeito de tempos onde a racionalidade é colocada como principal meio para o homem compreender a realidade. Explico: o mundo gerado por esse racionalismo exacerbado criou um estado de cientificismo. As ciências baseadas na matemática e na lógica formal, possuem grande destaque em nossa sociedade, mas têm como “sobra de senso comum” em seus tratados, o desprezo por tudo aquilo que não segue seus métodos. A ideologia dominante, por ser oriunda desse culto à razão, carrega fortemente esses traços e mantém entre os dominados esse ranço. O senso comum busca justamente, a exemplo do texto analisado, banir tudo aquilo que não possui serventia, que não é bom e nem útil. É o que a ciência busca fazer com tudo aquilo que não é ciência. É como ver o “sujo falando do mal-lavado”, afinal, como afirmar qual forma de conhecimento possui menos incertezas sobre a realidade?
Outra forma de auto-crítica do senso comum, é o fato deste atribuir a si a alienação por parte dos meios de comunicação de massa. Tal afirmação descuidada nega o fato de que existe uma ideologia que não é forma de conhecimento, mas de dominação. A ideologia, que busca meios de alienação, utiliza-se não só do senso comum, mas da ciência, da religião ou das artes, por exemplo. Afirmar que tal alienação é provocada pelo senso comum surge da ignorância sobre a real causa das amarras ideológicas da sociedade.
Quem fala mal do senso comum despreza grande parte da história do homem e nega sua própria vida. É como criticar um bebê por engatinhar, sem saber que um dia esse se tornará um grande maratonista. Mais ainda, quem fala mal do senso comum, utilizando-se de argumentos como os apresentados acima, demonstra estar preso a ele de forma incontestável.