Wicked, arquétipos e o preço de sustentar o mito

No desfecho de Wicked – Parte 2, a narrativa atinge um ponto de rara densidade simbólica. O conflito entre Glinda e Elphaba deixa de ser apenas moral ou político e se transforma numa questão propriamente arquetípica: o que acontece quando a verdade destrói o mito que sustenta uma coletividade? E, inversamente, qual é o custo psíquico de sustentar uma imagem simbólica quando se sabe que ela repousa sobre um vazio?

Essa é uma pergunta central na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, especialmente em textos como Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo e O Homem e seus Símbolos. Para Jung, sociedades não se organizam apenas por leis ou racionalidade, mas por imagens simbólicas compartilhadas, que dão forma ao inconsciente coletivo e oferecem continência psíquica ao indivíduo.

É exatamente esse o dilema dramatizado em Wicked.

Elphaba, ao descobrir a verdade sobre o Mágico de Oz, encarna a figura da consciência desiludida. Ela vê a fraude, o caráter ilusório do poder e a manipulação simbólica que sustenta Oz. Em termos junguianos, Elphaba se aproxima do arquétipo do exilado, do bode expiatório ou mesmo da figura profética, aquela que tem acesso a um excesso de verdade e, por isso mesmo, não consegue mais permanecer integrada à ordem simbólica vigente. Jung observa que a consciência inflada pela verdade pode se tornar destrutiva quando não encontra mediação simbólica — ela rompe vínculos em vez de transformá-los.

Elphaba não pode governar Oz justamente porque a verdade que carrega é desorganizante. Revelá-la integralmente significaria expor o vazio estrutural do poder e dissolver o tecido simbólico que mantém a coletividade coesa. Seu gesto final — o sacrifício e o exílio — não deve ser lido como ingenuidade ou derrota moral, mas como uma decisão trágica e lúcida. Ela compreende algo profundamente junguiano: nem toda verdade pode ser vivida diretamente; algumas precisam ser simbolizadas, ritualizadas ou suportadas à distância.

Glinda, por sua vez, faz uma escolha igualmente custosa, embora menos heroica aos olhos românticos. Ela também conhece a verdade sobre o Mágico, mas decide permanecer no poder. O ponto crucial é que Glinda não age por ignorância. Ela aceita conscientemente a função da persona, conceito central em Jung. A persona não é simplesmente falsidade ou máscara enganosa; ela é a mediação necessária entre o indivíduo, os arquétipos e o mundo social. Quando a persona se rompe abruptamente, o sujeito — ou a coletividade — fica exposto à irrupção caótica do inconsciente.

Nesse sentido, Glinda encarna o arquétipo da Grande Mãe em sua forma civilizatória. Não a mãe arcaica e fusional, mas aquela que oferece continência, previsibilidade e cuidado simbólico. Em Aion, Jung observa que o arquétipo materno não se manifesta apenas como nutrição, mas também como estrutura, ordem e proteção contra o colapso psíquico. Glinda entende que o povo de Oz não está pronto para viver sem imagens compartilhadas. Sustentar a “personagem” não é, aqui, simples manipulação: é uma tentativa de preservar o vínculo social.

O Mágico de Oz representa aquilo que Jung chamaria de significante vazio inflado por projeções arquetípicas. O poder, desprovido de fundamento real, sobrevive porque é investido simbolicamente. A diferença ética fundamental do filme está no modo como essa inflação é tratada. O Mágico se serve do símbolo; Glinda se submete à responsabilidade de sustentá-lo. Entre uso cínico e serviço simbólico, há uma distância ética decisiva.

O sacrifício de Elphaba opera como uma verdadeira dinâmica arquetípica do bode expiatório, tema recorrente tanto em Jung quanto na antropologia simbólica. Ao assumir o lugar da exclusão, ela protege a coletividade de um confronto prematuro com o vazio do poder. Jung insistia que a integração da sombra — individual ou coletiva — precisa ser gradual; quando ocorre de modo abrupto, tende a gerar colapsos, projeções paranoides ou violência social.

Lida dessa forma, Wicked – Parte 2 dialoga diretamente com a crise simbólica contemporânea. Vivemos uma época marcada pela desmontagem contínua de mitos, pela exposição incessante das fraudes institucionais e pela desconfiança radical das figuras de autoridade. O filme parece perguntar: o que acontece quando desmontamos todas as imagens sem oferecer novas formas simbólicas de sustentação? Para Jung, a retirada dos arquétipos não produz liberdade imediata, mas frequentemente abre espaço para o niilismo, o cinismo ou a inflação de novas imagens igualmente frágeis.

O desfecho do filme é, por isso, profundamente trágico — no sentido clássico. Elphaba paga o preço da lucidez: isolamento, exílio, sacrifício. Glinda paga o preço da representação: solidão, ambiguidade moral, a necessidade de sustentar uma imagem que ela sabe não ser inteira. Nenhuma das duas sai ilesa, e o filme não tenta conciliá-las artificialmente.

Em termos junguianos, Wicked nos lembra que a verdade sem símbolo pode destruir, assim como o símbolo sem verdade pode manipular. A vida cultural se move sempre nesse campo de tensão. Glinda e Elphaba não são opostas morais, mas funções complementares de uma mesma crise arquetípica. Talvez seja por isso que essa história ressoe tanto hoje: porque, em alguma medida, todos estamos tentando decidir o que sustentar, o que revelar e o que sacrificar para que a vida coletiva continue possível.

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